Viagem a bordo do navio Creoula

Wednesday, November 22, 2006

Olá amigos!

Depois de todo este tempo em silencio, quero enviar um beijinho muito grande para agradecer a todos a maneira como fui integrada no grupo. Apesar de ser uma "cota" esqueci-me da idade e senti-me mais uma.

Quando "embarquei" nesta aventura o meu receio não era o enjoo, as tarefas, o mar... O meu medo era a integração no meio de um grupo de jovens, que a partir do primeiro momento me trataram como se a idade não existisse. Durante uma semana fomos todos iguais. Partilhámos as mesmas tarefas, os mesmos receios, as mesmas inquietudes, as mesmas alegrias... Durante uma semana partilhámos o sentimento mais lindo ao de cima da terra (e do mar, neste caso): a AMIZADE.

Haveria muito mais para dizer mas palavras para quê?.. Obrigada a todos e bem hajam! Espero vê-los em Dezembro ou Janeiro!!!

Beijinhos para todos,
Elisa Marques

Monday, October 30, 2006

Diário de Bordo


Dia 8 – A tristeza da despedida e o desejo de voltar

Pelas 6h30 o grupo que estava de quarto teve a tarefa adicional de caçar a vela (descê-la). Um trabalho que os instruendos já começavam a dominar e que certamente gostariam de ter feito mais vezes.

Formatura às 8h30 para logo depois, e a correr, arrumarmos os últimos objectos na mala e fazer a última faxina daquela que foi a casa de 50 “marinheiros” durante uma semana. Terminadas as tarefas, e com a entrada na barra de Lisboa, aproxima-se a passos largos o final da aventura. Tiram-se as últimas fotografias, prometiam-se novos encontros e comentava-se o quão emocionante foi a viagem. No entanto, ainda faltava um bom bocado para abandonar o Creoula. Alinhados a estibordo os instruendos tiveram que dar várias voltas no Tejo até que o navio conseguisse atracar na base naval do Alfeite.

Alguns dos tripulantes comentavam que passámos por uma espécie de “big brother” no barco, não nos conhecíamos e, em conjunto, superámos medos e apoiámo-nos mutuamente, formando uma grande família. O lema "um por todos e todos por um" ganhou aqui mais valor pois do desempenho de cada um dependia o bom funcionamento geral.

O reencontro com os parentes, a despedida de amigos e novos amores deixou muitos dos passageiros de lágrima no olho. À saída ninguém foi capaz de esquecer o que passou a bordo e em todos fica o desejo de voltar a viver esta aventura.

O Creoula, esse, partiu dois dias depois com a sua tripulação para ainda fazer, este ano, duas viagens à Berlenga e uma a Cadiz.

Até à próxima viagem.


Texto: Fátima Ferreira
Foto: Ricardo Cordeiro

Friday, October 27, 2006

Diário de Bordo


Dia 7 – Protegidos na baía de Cascais

Acordámos fundeados ao largo de Sesimbra para que o navio pudesse receber uma visita de mergulhadores que ali iriam filmar o seu casco. Com os mergulhadores chegaram a bordo alguns jornais e revistas que nos permitiram tomar um contacto profundo com o mundo. Até agora tínhamos, por vezes, a televisão por satélite, os telemóveis e as revistas que embarcaram no Alfeite e que já tinham sido vistas mais que uma vez.

Após o trabalho dos mergulhadores voltámos a içar âncora para fundearmos ao largo da baía de Cascais, um local mais protegido da ondulação forte, dado que as previsões apontavam mau tempo no mar. Os tempos mortos foram passados a apanhar banhos de sol, jogar às cartas, a ler e a ouvir música. No mar parece que o tempo demora mais a passar, tudo é calmo.

A comunicação social que acompanhou a viagem teve oportunidade de falar com o comandante Silva Ramos e ficar a conhecer os aposentos dos oficiais, proibidos a toda a tripulação. Noite fora foram projectadas milhares de fotos tiradas durante a viagem neste que é o único navio genuinamente português e que foi construído em 1937, no tempo recorde de 62 dias, para a pesca do bacalhau.

(continua)


Texto: Fátima Ferreira
Foto: Ricardo Cordeiro

Thursday, October 26, 2006

Diário de Bordo

Dia 6 – Acompanhados por golfinhos

4h30 – Na cabine do oficial à ponte trava-se uma autêntica batalha naval, mas com outros propósitos, o de não embater em nenhuma outra embarcação que por ali anda à pesca.

Através do radar e das informações transmitidas pelo vigia, o oficial vai delimitando qual a rota que o navio deve tomar para se afastar dos outros barcos, normalmente mais pequenos, que por ali andam a pescar e por vezes não têm especial atenção à direcção que levam. Os locais de maior tráfego de barcos são normalmente em Leixões, Viana do Castelo e Algarve.

Nas horas mais calmas havia a possibilidade de espreitar pelos binóculos, ver os graus no azimute, adquirir alguns conhecimentos sobre as estrelas e constelações ou até ver o placton a brilhar quando se acendia a lanterna na água. De meia em meia hora era também necessário marcar o percurso na carta marítima. O Creoula navegou entre uma milha da terra, junto ao Cabo de S. Vicente, e as 20 milhas, na zona de Huelva, na fronteira com Espanha.

Pelas 6 horas o oficial voltou a lançar a linha para mais uma pescaria. No dia anterior tinham pescado um atum e um dourado e hoje ainda iriam morder o isco plástico mais dois peixes e uma gaivota que acabou por morrer asfixiada na água.

A ondulação continua forte, cerca de meio metro, e a tripulação reparte-se agora pelo convés onde observam os golfinhos e a costa algarvia e pela biblioteca a ver os milhares de fotos tiradas da viagem e já com saudades daquilo que está a ser, para muitos, o seu baptismo de mar.

Voltámos a içar as velas permitindo ao navio navegar ao sabor do vento, de modo a atrasar o seu trajecto até Sesimbra, onde devíamos chegar apenas na manhã de 11 de Outubro.


(continua)


Texto: Fátima Ferreira
Foto: Ricardo Cordeiro

Wednesday, October 25, 2006

Diário de Bordo

Dia 5 – “Hasta la vista Cadiz”

Deixámos Cadiz nessa manhã, mas não sem antes tirar uma foto de grupo com a t-shirt oficial do passeio, a da pêra Rocha, e ver uma manifestação silenciosa que caminhava a passos largos para o centro da cidade.

O mar esperava-nos para um regresso que ainda iria demorar mais três dias até voltarmos a pisar terra firme. Altura também para voltar aos quartos e à rotina de uma viagem marítima que nos avisavam seria mais ondulante.

Após o almoço a guarnição aprendeu a fazer nós, autênticos quebra-cabeças, mas que nas mãos dos marinheiros parecem tão fáceis de fazer.

Começámos pelo nó de chicote – de complexidade relativa - para fazermos, ou pelo menos tentarmos, autênticas obras de arte, como o nó de azelha, nó de escota, nó de bombeiro ou de lais de guia à espanhola.

Larga o pano, larga o pano ao vento, Deus é o nosso guia e protege o nosso grupo”, dizia o narrador do documentário sobre a pesca do bacalhau exibido na vela do navio. O filme retrata a vida árdua dos marinheiros a bordo do Creoula nos mares do norte para onde iam pescar bacalhau. Alguns não voltavam e outros traziam sequelas de temporadas em alto mar em condições difíceis e a comer bacalhau a todas as refeições do dia.

Já madrugada o Creoula começou a atrasar a sua viagem por causa da forte ondulação prevista a partir do Cabo de S. Vicente.

(continua)


Texto: Fátima Ferreira
Foto: Ricardo Cordeiro

Tuesday, October 24, 2006

Diário de Bordo

Dia 4- Produtos do Oeste não cativaram espanhóis

O dia arrancou mais tarde a bordo do Creoula. A alvorada foi dada às 8 horas para estarmos em formatura hora e meia depois. Após a limpeza habitual, Maria, uma guia espanhola fez uma visita guiada pela zona histórica da cidade mais antiga do ocidente, com cerca de três mil anos.
Desde sempre ligada ao comércio entre Espanha e a América, esta cidade possui vários monumentos que atestam a sua grandeza em várias épocas, sendo a catedral de Cadiz o seu expoente máximo. Também conhecido como a catedral das Américas este monumento foi construído graças ao dinheiro americano e com dois tipos de pedra bem diferentes. Na praça fronteira está representada em pedra a sua planta interior, com referências aos seus 16 altares laterais.
A figura de Hércules aparece por toda a cidade, ou não conte a lenda que ele foi o seu fundador. Outro símbolo da cidade são as torres de vigia. Existem 160 ao todo e serviam para a defender de possíveis invasores.
Este porto foi também ponto de partida para quatro viagens que Cristóvão Colombo efectuou rumo à América.
A tarde foi de passeio e praia para muitos dos instruendos, enquanto outros recuperavam da noitada anterior por terras de nuestros hermanos. Por volta das 18 horas, o navio foi palco de uma apresentação dos produtos do Oeste, que trouxe a bordo o presidente da Região de Turismo do Oeste, António Carneiro e apenas uma família de espanhóis. Eram esperados jornalistas e agências de turismo mas ninguém apareceu, restando apenas contar com a guarnição, que literalmente vestiu a camisola da Pêra Rocha, para degustarem a fruta, queijos, vinhos, e doces desta região.

(continua)


Texto: Fátima Ferreira
Foto: Ricardo Cordeiro

Monday, October 23, 2006


"essa tua imponente rigidez acabará por um dia cessar, restando apenas destroços que na minha memória nao vou guardar."


Pode tudo isto acabar,mas o que foi sentido e interiorizado nesta viagem nao mais será esquecido. o "para sempre" aqui faz sentido. É necessário reavivar na memória vezes sem conta, infinitamente, continuamente, tudo aquilo que nos fez sentir bem durantes os escassos 7 dias de pura emoçao.


Edgar Libório
Tudo teve inicio numa pequena chamada de uma grande amiga.. Para o que ia não sabia...

Lá fui a mais uma aventura do desconhecido... Caras novas, pessoas novas, reflecções novas, cheiros novos, pensamanentos novos... Amizades fortes....!!!! Tudo coisas vividas nesses 7 dias como Instruendo...

Como um Navio pode-nos fazer ver as pequenas coisas da vida como grandes momentos...

Poderia escrever aqui muitas coisas, falar de pessoas... de conversas.. de risos... de partinhas... e quem sabe até de casas de banho (tema muito falado a Bordo..)... mas queria apenas dizer que guardo comigo uma semana fantástica... com pessoas 5 estrelas...

Obrigado pela oportunidade...

Para as novas pessoas com quem fortaleci um carinho e amizade.. ADOREI-VOS TER CONHECIDO.... !!!! E MORRO DE SAUDADES...

Claro que não há nenhum instrudendo que directamente ou indirectamente não me tenha feito reflectir na vida.. Até alguns "pseudos" de alguma forma me fizeram ver que há outros valores na vida... ou melhor dizendo.. reforçar os que já tinha...

Inclusive dos mais novos, que não deixavam de me tratar como Senhor... esses jovens não sabem que o Senhor está no ceu... lol mas eram pessoas bastante boas e lutadoras... Continuem assim !!!

Mas é claro que há sempre outras pessoas... que no tocam e nos deixam saudades...

Beijos e Abraços Para TODOS !!!!

Foi um grande prazer vos ter conhecido e ter partilhado esta experiencia convosco !!!!
Diário de Bordo

Dia 3- Chegada a Cadiz

"Guarnição e instruendos formar e alinhar!!", grita o marinheiro responsável pelas tarefas matinais. Pouco passava das 10 horas e os instruendos e tripulação alinhavam-se a estibordo para o navio atracar no porto de Cadiz. Foi uma manhã de muito trabalho. Além das tarefas habituais tivemos que “engalanar” o navio que durante os dois dias que ali estaria parado ficaria aberto para visitas.

Os metais foram limpos e colocadas lâmpadas e bandeiras a enfeitar o lugre. Durante esta estadia, e por estar dentro de um porto e pouco visível a quem passa, foram poucos os espanhóis que o visitaram, mas há locais no norte do país e Espanha em que o Creoula recebe autênticas romarias quando lá se encontra atracado.

Hoje é feriado em Cadiz, celebra-se o Dia de Nossa Senhora do Rosário, padroeira dos marinheiros. A tarde é livre e a noite promete. Os mais conhecedores aproveitaram para ir almoçar ao Porto de Santa Maria, a 20 minutos de distância de barco, que é famoso pelo seu peixe e marisco. Já outros ficaram a almoçar massada de peixe no navio e depois foram à descoberta da cidade.

Como era feriado eram poucas as lojas abertas para comprar recordações, pelo que grande parte da tarde foi passada numa esplanada a comer gelados, tapas e a beber cervejas.

A noite em Cadiz é vivida de forma bem diferente da portuguesa. Os jovens, especialmente as raparigas arranjam-se a rigor, de uma forma até bastante exuberante para, acabarem a noite num jardim a beber com os amigos. Não se ouve música, e as discotecas que vimos estavam “às moscas”.

Os sumos e gasosas, juntamente com o gelo e copos de plástico são comprados em pequenas mercearias [que também vendem bebidas alcoólicas embora às escondidas] e depois levados em sacos de plástico para o local de encontro.

(continua)


Texto: Fátima Ferreira
Foto: Ricardo Cordeiro